A transformação digital não é “conversa” de consultor

 

Transformação digital é um fenômeno novo, que ainda gera dúvidas até mesmo quanto sua definição e abrangência. Considero que transformação digital é incorporar tecnologias digitais para mudar radicalmente a maneira como a empresa opera, compreendendo, muitas vezes, mudanças em seus modelos de negócio. E por ser um fenômeno novo, não sabemos bem o que é, mas já sentimos que existem mudanças significativas acontecendo aqui e ali, sinais claros do embrião de uma revolução.

Estamos trilhando os primeiros passos, mas que ao longo dos próximos anos vão desmontar empresas e até setores consolidados. Funções e empregos existentes vão desaparecer e outros surgirão em seu lugar, competidores vão surgir de lugares inesperados, criando novos setores de indústria.

A questão é: as empresas e seus executivos estão se dando conta destas transformações que começam a dar sinais de vida?

No meu convívio com o mundo corporativo, principalmente CEOs e CIOs, vejo que uma grande parcela das empresas ainda não tem consciência da amplitude da transformação que está por vir. É um tsunami em alto mar, pouco perceptível ainda, mas com poder de levar o que encontra pela frente.

Uma das dificuldades que temos em visualizar as mudanças que estão ocorrendo de forma exponencial é que pensamos de forma linear. Um desafio que faço nas reuniões com executivos é: “tentem imaginar como seria sua empresa daqui a cinco anos, transformada pelas tecnologias digitais” e para isso olhem como ela era há dez anos atrás e a compare com hoje. Sim, como as mudanças são exponenciais, os cinco anos à frente serão, no mínimo, tão intensos como os dez anos que passaram.

Há dez anos a maioria dos executivos não conseguia imaginar um cenário de intenso uso de redes sociais, smartphones e seus apps, Analytics, Computação em Nuvem, DevOps e assim por diante. Facebook, Twitter, AirBnB, Uber e outras empresas não passavam, nem por sonho, a integrar as discussões das estratégias de negócios. Empresas aéreas não faziam check-in online pelo smartphone (iPhone surgiu em 2007), Internet banking e e-commerce eram incipientes. Aliás, o iPhone destruiu mais de 20 modelos de negócio: música, GPS, câmeras fotográficas e de vídeo (deslocadas para nicho de mercado), celular ... Recomendo, para um aprofundamento no assunto, a leitura do artigo “Making sense of digital disruption” e do livro “Disrupting Digital Business”, de R “Ray” Wang.

Como fazer a transformação digital? Não é comprando e implementando tecnologias sem um mapa claro de onde se quer chegar. A transformação digital começa com uma estratégia de transformação digital do negócio. Para definir esta estratégia, em um cenário onde a única certeza é a incerteza, não será suficiente olhar os problemas de negócio atuais. Será preciso olhar como as tecnologias digitais poderão impactar o negócio, criando rupturas (por exemplo, a shared economy e novos entrantes) e a partir deste contexto, desenhar o mapa de onde você quer chegar. Ou seja, tente fazer uma engenharia reversa de um futuro imaginado e crie as ações para sair do hoje e chegar lá.

Algumas barreiras têm que ser quebradas. Afinal não estamos falando de inovação incremental (esta é o dia a dia, melhorias dos modelos e processos existentes) mas de inovação transformadora: ruptura de modelos, novas categorias de produtos e canibalização do próprio negócio. Muitas empresas não têm o DNA de transformação. A cultura organizacional é uma barreira difícil de vencer. Onde você posiciona a cultura de sua empresa? A) É inovadora (first mover) por natureza? B) É uma seguidora rápida (fast follower)? Estas são as que acompanham de perto as inovadoras e tentam segui-las o mais rápido possível, evitando os erros do pioneirismo. C) É cautelosa, que atua de forma proativa em mudanças, mas age apenas quando já existem “best practices” consolidadas? Ou é D) retardatária ou laggard, que basicamente adotam o lema “ meu negócio sempre deu certo assim. Por que mudar?”

Vale a pena notar que a grande maioria das empresas que sistematicamente desaparecem da lista da Fortune 500 faz parte dos grupos de empresas cautelosas e retardatárias. Infelizmente, para cada Google, Amazon, AirBnB e outras empresas que assumem riscos a cada instante, existem milhares de outras que se mantém no seu canto, confiando seguras que seu setor se perpetuará protegido, seja por regulação, seja por aversão a riscos, mas com as mudanças acontecendo de forma tão dramáticas e rápidas, os custos da inação tenderão a se tornar bem maiores que os custos dos riscos.

A organização também afeta a capacidade de a empresa mergulhar na transformação digital. Como sabemos a tecnologia é essencial a este processo e quando vemos áreas de TI colocadas sob gestão financista, quando muitos CFOs olham mais os números e menos as inovações disruptivas, e CIOs mais preocupados em discutir tecnologias que transformações de negócio baseadas na digitalização, vemos que existe um risco de sobrevivência. Aliás, a relevância da expertise técnica do CIO tende a despencar, dando lugar a relevância da expertise de negócio, inovação e empreendedorismo.

Tecnologia deve ser meio e não o fim de sua atividade na empresa. Observamos que muitas dessas empresas carecem de um líder que as mobilizem e a galvanizem em relação à transformação digital. Sem uma clara liderança digital, a consequência é que os budgets que possibilitam investir em inovação são restritos e em caso de situações econômicas adversas, como a que vivemos atualmente no país, simplesmente são eliminados.

A transformação digital requer uma nova mentalidade, um mindset digital. Implementar uma cultura digital passa inclusive por contratação de executivos e funcionários que pensam digital. Nativos digitais ou mesmo “naturalizados digitais” atuam no mundo digital de forma muito mais natural que os migrantes digitais, receosos de mergulhar fundo na transformação digital. Afinal, não é o mundo onde se formaram e se prepararam profissionalmente. Existe a tendência natural de se sentirem inseguros neste novo contexto.

Volta e meia observo empresas iniciando sua jornada de transformação digital sem participação ativa de seu CIO. Unidades de negócio começam criando suas “shadow IT” pelo simples fato que a área de TI se apega ao modelo convencional, mais preocupado em evitar mudanças e manter aderência a compliances que em inovar a arriscar.

Os CIOs que não entenderem esta mudança cataclísmica para sua TI, tornando sua TI mais ágil, vão perder a relevância. Claro que nenhuma TI pode se transformar e operar como uma startup de um dia para o outro, mas porque não operar de forma bimodal? Porque não reagir ao “shadow IT” não tentando controlar o ambiente (adotando a mesma e desgastada fórmula de sempre...), mas criando núcleos que operem como uma lean startup dentro de TI? Uma pesquisa do Gartner aponta que em 2017 (amanhã...) cerca de 75% das empresas terão em maior ou menor grau uma TI bimodal atendendo as diferentes demandas e velocidades do negócio.

O fenômeno da transformação digital não é “conversa” de consultor. Como o aquecimento global, tão questionado no início e que hoje já deixou de ser teoria para ser uma triste realidade, a transformação digital vai atingir de forma disruptiva todos os setores, em maior ou menor grau. E muito mais rápido que pensamos. O sucesso nesta jornada, inevitável, sob risco de desaparecimento do próprio negócio, depende menos das tecnologias em si, e muito da capacidade das empresas e seus executivos compreenderem sua amplitude, e o desafio de implementarem suas estratégias digitais em tempo hábil. Transformação digital não é uma simples e desordenada adoção massiva de novas tecnologias, mas uma verdadeira “Business Digital Transformation”.

 

(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting e autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data